
As universidades públicas ibero-americanas podem deixar de utilizar apenas tecnologia de terceiros e começar a produzir a sua própria. Esta é a principal conclusão do relatório Labs UniversitarIA, um documento da Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), no qual cinco universidades da Argentina, do Brasil, do Chile, de Espanha e do Uruguai conceberam, prototiparam e testaram cinco soluções de inteligência artificial para resolver problemas concretos da vida universitária. Os resultados foram apresentados hoje em Cádis, na IV Semana Ibero-Americana de Inovação Pública, que antecede a XXX Cimeira Ibero-Americana.
O documento, com licença aberta, para que outras instituições possam reproduzir o método, assinala a IA como uma questão institucional fundamental e sublinha o desafio de saber para que é utilizada, com que dados, segundo que critérios e com que capacidade de decisão.
Na aliança participam a Universidade de Buenos Aires (UBA), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade do Chile, a Universidade da Corunha (UDC) e a Universidade Tecnológica do Uruguai (UTEC). A coordenação está a cargo da Divisão de Inovação Pública e Cidadã da SEGIB, com o apoio da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID).
Cinco ferramentas para problemas reais
Cada universidade propôs um desafio próprio, mas nenhuma o resolveu sozinha. As cinco equipas foram constituídas por pessoas de todas as instituições da aliança:
- AIuda (Universidade do Chile). Uma plataforma que cria legendas, transcreve e verifica a acessibilidade dos materiais pedagógicos sem que os dados saiam da universidade. No projeto-piloto, criou legendas para 40 vídeos de cursos em linha, com uma média de três minutos por vídeo.
- AretéIA (UBA). Ajuda os docentes a conceber avaliações sem substituir o seu critério. Foi testada por 64 docentes de 14 unidades académicas, e 91 % considerou que lhes forneceu uma base útil.
- AsistIAG (UDC). Um assistente que analisa os programas das unidades curriculares e verifica se cumprem a regulamentação, por exemplo, no que diz respeito à linguagem inclusiva. As pessoas responsáveis pela coordenação que o utilizaram atribuíram-lhe 90 pontos em 100 em termos de usabilidade.
- Cidade Social (UFRJ). Uma aplicação móvel colaborativa que liga a comunidade universitária às atividades de extensão do campus e da cidade.
- UNI+ (UTEC). Um sistema de alerta precoce que ajuda os tutores a detetar o risco de abandono no primeiro ano, sobretudo nos cursos a distância.
As cinco ferramentas seguem o mesmo princípio: a IA apoia e a pessoa decide. Além disso, os dados permanecem nos servidores de cada universidade, são utilizados, preferencialmente, software e modelos abertos, e tudo o que é produzido está sob uma licença Creative Commons desde o primeiro dia.
De 21 ideias a nove projetos-piloto
O percurso começou em Santiago do Chile, em julho de 2025. Das 21 propostas iniciais, foi escolhida uma por universidade, através de uma avaliação na qual nenhuma instituição avaliou as suas próprias propostas. À convocatória para formar as equipas responderam 67 pessoas, entre docentes, estudantes e pessoal de gestão.
Os protótipos foram construídos numa semana de laboratório presencial em Buenos Aires, em abril de 2026, com mais de 40 pessoas. Os projetos-piloto foram posteriormente concebidos na Corunha. Entre maio e setembro, foram realizados nove dos dez previstos. A novidade foi o projeto-piloto cruzado: cada universidade testou a sua própria ferramenta e também a de outra instituição, para verificar se funcionava fora do local onde tinha sido criada. A Universidade do Chile ficou responsável por sistematizar toda a experiência.
«A Labs UniversitarIA demonstra que é possível uma outra inteligência artificial: uma inteligência que é construída em rede, que responde às nossas necessidades e que protege os dados das nossas comunidades. As soluções não são simplesmente transferidas de um país para outro: são testadas e adaptadas. É essa aprendizagem partilhada que queremos deixar implementada na Ibero-América», afirma Pablo Pascale, chefe da Divisão de Inovação Pública e Cidadã da SEGIB.
A IV Semana Ibero-Americana de Inovação Pública realiza-se em Cádis, de 29 de setembro a 2 de outubro. Reúne representantes dos 22 países ibero-americanos e foi inaugurada pelo secretário-geral ibero-americano, Andrés Allamand. As suas conclusões contribuirão para a agenda da XXX Cimeira Ibero-Americana, que se realizará em Madrid em novembro.
