Organismo internacional ao
serviço da Ibero-América

Portada » O momento da Ibero-América

O momento da Ibero-América

por Andrés Allamand e Antonio Garamendi

Artigo de opinião publicado no jornal La Nación (*) , por ocasião do XVI Encontro Empresarial, que se realizará em Madrid em novembro, no âmbito da XXX Cimeira Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo.

Stefan Zweig chamou «momentos decisivos» àqueles instantes em que uma decisão determina o rumo de décadas. A Ibero-América está às portas de um deles. Os Estados Unidos declararam prioritária a sua relação com a América Latina, a União Europeia ambiciona ser o seu parceiro preferencial, a China quer construir uma comunidade com a região e a Índia considera-a um parceiro fundamental. Mas, num mundo fragmentado, a relevância internacional não se presume: constrói-se. E essa construção exige o trabalho conjunto não só dos governos, mas deve também envolver o setor privado.

A Ibero-América tem a dimensão necessária para o fazer. É constituída por vinte e dois países de ambos os lados do Atlântico, que, no seu conjunto, representam mais de 700 milhões de pessoas, quase 9% da população mundial, e 8,6% do PIB mundial, segundo o FMI: em conjunto, seriam a terceira maior economia do mundo, depois dos Estados Unidos e da China. Partilham, além disso, algo que nenhum outro espaço possui: duas línguas globais e mutuamente compreensíveis, o espanhol e o português, faladas por cerca de 900 milhões de pessoas, que facilitam os intercâmbios e promovem o comércio e o investimento. Tudo isto permitiu à região construir uma agenda de interesses partilhados ao longo de mais de três décadas, de forma ininterrupta.

A região conta, além disso, com os recursos que o mundo procura. A América Latina alberga uma parte essencial da biodiversidade terrestre e da água doce do planeta, produz a maior parte da sua eletricidade a partir de fontes renováveis e reúne algumas das maiores reservas mundiais de lítio, cobre e terras raras. Em Andorra, Espanha e Portugal, as energias renováveis já representam a maior parte da produção de eletricidade. A Ibero-América é, além disso, um ator decisivo no comércio internacional de produtos agroalimentares.

Energia limpa, alimentos e minerais: a dupla transição, verde e digital, passa por aqui.

Mas dotação não é sinónimo de destino. Durante décadas, a região exportou matérias-primas sem reter o valor que geravam e, por isso, precisa agora de crescer mais e crescer melhor. A Comissão Económica para a América Latina e as Caraíbas (CEPAL) prevê que a América Latina cresça cerca de 2% em 2026, face aos quase 3% a nível mundial. Alterar esta trajetória exige avançar para um modelo mais sustentável e produtivo.

E essa transformação não será possível sem investimento, que pode ser promovido pelos Estados, mas que, em última instância, deve ser realizado pelas empresas. A América Latina recebeu, em 2025, mais de 194 mil milhões de dólares de investimento direto estrangeiro. A Espanha é o seu segundo maior investidor, com cerca de 250 mil milhões de euros acumulados, enquanto a região é já o quarto maior investidor em Espanha, com mais de 66 mil milhões. A estes vínculos económicos juntam-se fortes laços humanos: três milhões de latino-americanos vivem em Espanha, um milhão e meio de espanhóis na América Latina e quase meio milhão de brasileiros em Portugal. Com o acordo UE-Mercosul em aplicação provisória, a Ibero-América pode consolidar-se como corredor natural entre dois continentes que se complementam.

Para que esse corredor gere valor na região, é necessário contar com capacidades próprias que permitam tirar partido dos recursos e das vantagens disponíveis. Pouco serve o lítio se a tecnologia que o transforma vem do exterior; pouco serve produzir alimentos se o valor da sua transformação é gerado noutros mercados; pouco serve a energia limpa se não atrair a indústria que está chamada a tirar partido dela.

A inteligência artificial ilustra-o bem: o seu desenvolvimento concentra-se fora da região e funciona sobretudo em inglês. Mas a Ibero-América tem um dos maiores espaços linguísticos do mundo e uma cooperação regional consolidada ao longo de décadas. O desafio é passar de consumidores a produtores de inteligência artificial e fazer com que esta chegue às micro, pequenas e médias empresas.

Essas capacidades constroem-se com tecnologia e talento: inovação aberta entre empresas, universidades e administrações, e formação contínua e digital para os empregos do futuro.

Mas nem a tecnologia nem o talento se fixam sem um contexto que nenhuma empresa pode criar sozinha. Quem investe a vinte anos precisa de estabilidade institucional, segurança jurídica, regras previsíveis e menos entraves administrativos. O crescimento só perdura se incluir a formalização do emprego, garantir a milhões de pessoas acesso à saúde, à proteção social e a uma pensão e, ao mesmo tempo, aumentar a produtividade.

Nessa tarefa, as empresas não são espectadoras, mas uma parte essencial. Por isso, a colaboração público-privada não é uma opção, mas uma necessidade e um método de trabalho. Cabe ao Estado criar as condições; às empresas, investir, inovar e gerar emprego de qualidade; e às organizações empresariais, articular esse contributo e ser interlocutoras dos governos.

Na Ibero-América, sabemos que essa colaboração funciona porque a praticamos. Nascido em Salamanca, em 2005, o Encontro Empresarial Ibero-Americano (EEIB), organizado conjuntamente pela Secretaria-Geral Ibero-Americana e pelo Conselho de Empresários Ibero-Americanos, celebra este ano duas décadas de existência. Ao longo deste período, e a par de outras prioridades, promoveu a inovação aberta, as micro, pequenas e médias empresas e as parcerias público-privadas em áreas como a transição digital ou o turismo. Hoje, é o maior fórum empresarial da região e a única instância oficial do setor privado nas Cimeiras Ibero-Americanas, permitindo que empresas, organizações empresariais e outros atores do setor privado ibero-americano apresentem as suas propostas aos Chefes de Estado e de Governo.

Nos dias 3 e 4 de novembro, na antecâmara da XXX Cimeira Ibero-Americana, Madrid acolherá a sua XVI edição. As empresas chegarão dispostas a passar do diálogo à ação; a assumir a sua parte de responsabilidade no desenvolvimento da região, a definir metas e a prestar contas sobre o seu cumprimento. Temos a escala, os ativos e empresários comprometidos. Façamos deste Encontro o ponto de partida do momento de afirmação da Ibero-América, renovando o compromisso com uma Comunidade e um projeto reafirmados.

Andrés Allamand é Secretário-Geral Ibero-Americano. Antonio Garamendi é presidente da Confederação Espanhola de Organizações Empresariais (CEOE) e presidente do Conselho de Empresários Ibero-Americanos (CEIB).

(*) https://www.nacion.com/opinion/foros/el-momento-de-iberoamerica/V67CT54Q2JB3FGVHIL5P5H2YQE/story/