A SEGIB, a Iniciativa Ibero-Americana para Prevenir e Eliminar a Violência contra as Mulheres (IIPEVCM), o UNFPA e o CAF apresentaram hoje o relatório “Medir para transformar: o custo da violência contra as mulheres na Ibero-América”, a primeira sistematização regional de metodologias de cálculo dos custos da violência contra as mulheres no espaço ibero-americano.
O estudo, financiado pela AECID, analisa 17 estudos(*) produzidos entre 2004 e 2025 na Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, Espanha, México, Paraguai, Peru, Portugal e Uruguai. A partir desses dados, demonstra que a violência contra as mulheres não constitui apenas uma grave violação dos direitos humanos, mas também um obstáculo estrutural ao desenvolvimento económico e social. Em alguns desses países, a violência contra as mulheres pode representar até 5% do PIB, segundo os estudos do Paraguai e do Equador.
“Medir é tornar visível e dotar-nos de ferramentas para impulsionar políticas públicas eficazes. Investir em igualdade não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma aposta estratégica que gera benefícios sociais e económicos”, afirmou a Presidente da IIPEVCM, Carmen Martínez, durante a apresentação do relatório. Lorena Larios, Secretária de Cooperação da SEGIB, acrescentou que: “Com dados consolidados, como os que apresentamos neste estudo, podemos dizer aos Governos que investir na prevenção é investir no bem-estar e nos direitos humanos”.
Por sua vez, a autora do relatório, Celina Santellán, economista e especialista em Género, reiterou a importância de ampliar a perspetiva na medição e na procura de soluções para combater a violência de género de uma forma integral. Nesse sentido, Telma Ortiz, assessora sénior na área de mobilização de recursos e alianças globais do CAF, sublinhou a importância de um banco de desenvolvimento abordar trabalhos como o apresentado, de forma a enfrentar a violência numa perspetiva global, compreendendo também o seu impacto no desenvolvimento e nas sociedades.
O icebergue da violência: o que os dados não mostram
O maior desafio metodológico identificado pelo documento é a dimensão da subnotificação. No México, por exemplo, apenas 13,6% dos casos chegam a denúncia formal (CONAVIM, 2016). No Equador, as denúncias representam apenas 5% dos casos reais (Vara Horna, 2020). Isto significa que todas as estimativas de custos disponíveis são necessariamente conservadoras e que o custo económico real da violência contra as mulheres na região é superior aos números publicados.
O documento alerta ainda para as persistentes lacunas em matéria de informação interseccional. A maioria dos estudos não consegue desagregar suficientemente os impactos segundo a idade, deficiência, condição migratória, pertença étnico-racial ou situação socioeconómica, o que limita a capacidade de conceber respostas públicas mais focalizadas e equitativas.
Mulheres e agregados familiares: 44% – 50% do custo total
Segundo os relatórios do Paraguai e do Equador, as mulheres e os seus agregados familiares são os que suportam a maior parte do custo da violência: entre 44% e 50% recai sobre elas. Essa percentagem traduz-se em despesas de saúde e justiça, perda de rendimentos pessoais, descapitalização de microempresas e, de forma menos visível mas igualmente documentada, na perda de dias de aulas de filhas e filhos.
Empresas: o segundo maior agente na absorção dos custos
O relatório assinala que as perdas de produtividade não resultam principalmente do absentismo laboral, mas sim do menor rendimento das trabalhadoras que comparecem ao trabalho enquanto enfrentam situações de violência. Este fator, o presentismo, pode representar até 73% do custo laboral total para as empresas.
A isto somam-se os custos da rotatividade de pessoal e o tempo que outras pessoas do ambiente de trabalho dedicam a apoiar colegas em situação de violência, uma variável que nenhum estudo quantificou de forma sistemática até à data. Assim, a estimativa dos custos empresariais é inferior à realidade.
Estado: 11% – 13% do custo total, quase inteiramente reativo
O Estado suporta apenas entre 11% e 13% do custo total que a violência contra as mulheres representa e destina essa despesa quase inteiramente à resposta reativa. Segundo o estudo, apesar de ter maior capacidade para atuar na prevenção, assume a menor proporção do custo nos países com dados disponíveis. O seu gasto concentra-se em serviços de saúde, justiça e segurança para responder à violência depois de esta ocorrer. Os documentos analisados são claros: a prevenção custaria menos. O documento também indica que investir na prevenção não só protege direitos e salva vidas, como também reduz custos futuros para os sistemas públicos e para as economias nacionais.
Recomendações
A publicação conclui com um conjunto de recomendações dirigidas a governos, organismos internacionais e equipas técnicas para melhorar a qualidade, comparabilidade e utilidade política dos estudos de cálculo de custos na região. Entre elas, destaca-se a necessidade de reforçar os sistemas estatísticos, incorporar o impacto do trabalho de cuidados não remunerado, melhorar a interoperabilidade dos registos administrativos e ligar de forma mais direta as estimativas económicas ao planeamento orçamental e às políticas de prevenção.
Dados-chave do relatório
- Até 5% do PIB: pode custar a violência contra as mulheres em alguns países da América Latina (Vara Horna, 2013)
- 44–50%: do custo total é suportado pelas mulheres e pelos seus agregados familiares (estudos do Paraguai e Equador)
- Até 73%: do custo laboral para as empresas pode resultar do presenteísmo, e não do absentismo
- Apenas 13,6%: dos casos chegam a denúncia formal no México (CONAVIM, 2016)
- Apenas 5%: dos casos se traduzem em denúncia no Equador (Vara Horna, 2020)
- 17 estudos: analisados em 10 países ibero-americanos entre 2004 e 2025

