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A SEGIB e o PNUD debatem como transformar a Ibero-América em produtora — e não apenas consumidora — de IA

A Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) realizam um diálogo de alto nível para analisar os desafios e oportunidades colocados pela inteligência artificial (IA).

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“A IA é uma revolução organizacional e, se não for entendida dessa forma, será uma revolução de vender pedra. O único que a América Latina não se pode permitir é entrar na venda de ‘contratos raros’ (e não de ‘terras raras’)”, afirmou o jurista argentino Gustavo Beliz, autor do Atlas de Inteligência Artificial para a América Latina e o Caribe, durante um encontro centrado na conceção de políticas públicas para uma IA responsável na Ibero-América.

A intervenção teve lugar na apresentação da sua obra na sede da Secretaria-Geral Ibero-Americana em Madrid, num ato que reuniu especialistas e representantes do meio científico e tecnológico.

Beliz, que defende uma IA orientada para o desenvolvimento humano, com inclusão social, ética e respeito pelos direitos, destacou a necessidade de reforçar a soberania tecnológica da região. Do mesmo modo, apelou a ultrapassar a “estrainflação imaginativa” através de pactos sociais que permitam distribuir de forma equitativa a riqueza gerada pela inteligência artificial.

Carme Artigas, especialista internacional em governação da inteligência artificial, sublinhou a importância de avançar para uma governação global neste âmbito. “Não há razão para não regular; se não há regras, não há confiança”, afirmou. Durante a sua intervenção, identificou um triplo défice no desenvolvimento atual da IA — inclusão, transparência e implementação — associado à sua origem no Norte global. Neste contexto, referiu que a Ibero-América pode desempenhar um papel relevante como garante de uma IA ética, assente no controlo dos dados e da energia.

Por sua vez, Alejandro Kawabata, diretor jurídico da SEGIB e responsável pela implementação da Carta Digital Ibero-Americana, destacou três forças estratégicas da região para se posicionar como ator global em IA: o potencial em energias renováveis, a disponibilidade de matérias-primas críticas para o desenvolvimento tecnológico e o valor das suas línguas. Neste sentido, sublinhou que o espanhol — terceira língua materna e segunda em presença digital — e o português — sexta língua materna — constituem um ativo fundamental. “Desenvolver capacidades em torno dos dados em espanhol, português e línguas originárias não é uma questão secundária: é uma questão de autonomia e de soberania tecnológica”, afirmou.

Juntamente com as oportunidades em áreas como a saúde, a ciência, a produtividade ou a tomada de decisões, o encontro também abordou os riscos associados a estas tecnologias. O cientista e neurologista argentino Mariano Sigman alertou para o perigo de a IA poder limitar ou atrofiar capacidades humanas fundamentais.

No debate posterior, no qual participaram especialistas dos meios científico, político, jornalístico e académico, destacou-se que nenhum país ibero-americano está em condições de competir por si só neste domínio. Em consequência, sublinhou-se a necessidade de uma resposta regional que contribua, além disso, para corrigir défices em matéria de diversidade e igualdade.

O diálogo enquadra-se nos trabalhos da SEGIB para implementar a Carta Ibero-Americana de Princípios e Direitos em Ambientes Digitais e projeta-se para a XXX Cimeira Ibero-Americana de Madrid, onde o Fórum Digital impulsionado pelo Governo de Espanha constituirá uma oportunidade para promover um projeto regional de cooperação em inteligência artificial centrado nos modelos de linguagem e na utilização das infraestruturas existentes.