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Medir a violência para a prevenir

Quantificar o custo económico da violência contra as mulheres é uma forma de abalar a indiferença social perante uma realidade quotidiana e de transformar a dor em argumento político, recordam a SEGIB, a CAF, a IIPEVCM e a UNFPA num texto originalmente publicado no jornal El País (*).

A violência contra as mulheres não só destrói vidas: também tem um enorme custo económico que, durante demasiado tempo, se manteve invisível no debate público. Na América Latina, o seu impacto pode alcançar entre 2% e 6% do produto interno bruto. São números que deveriam figurar na primeira página de qualquer agenda governamental.

Investigações como as lideradas pelo economista Javier Vara-Horna documentam-no com dados concretos: 3,7% do PIB no Peru, mais de 6% na Bolívia. São cifras ainda fragmentadas, difíceis de comparar entre países, mas suficientemente eloquentes para revelar a magnitude do problema. Quantificar esse custo não é um exercício tecnocrático: é uma forma de abalar a indiferença social perante uma realidade quotidiana e de transformar a dor em argumento político.

Por detrás dos dados há histórias concretas. Uma mulher que perde o emprego devido às ausências provocadas pela violência em casa. Outra que esgota as suas poupanças em cuidados de saúde e aconselhamento jurídico. Uma mãe que reorganiza toda a sua vida para proteger os seus filhos, assumindo sozinha custos que raramente aparecem nas estatísticas oficiais.

Entre 44% e 50% do custo total da violência recai diretamente sobre as mulheres e os seus agregados familiares. O Estado, por sua vez, assume apenas entre 11% e 13%, principalmente através dos sistemas de saúde, justiça e proteção social. A violência não só viola direitos: também transfere os seus custos para as vítimas.

E, ainda assim, continuamos sem contar com as ferramentas necessárias para a medir de forma sistemática. O sub-registo de casos, a fragmentação dos sistemas de informação e a ausência de metodologias comparáveis entre países dificultam a avaliação precisa da dimensão do fenómeno. Sabemos que o impacto é enorme. Nem sempre sabemos traduzi-lo em decisões públicas eficazes.

Este diagnóstico foi partilhado recentemente no âmbito da 69.ª sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher das Nações Unidas (CSW69), onde organismos como a Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), o Banco de Desenvolvimento da América Latina e das Caraíbas (CAF), o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a Iniciativa Ibero-Americana para Prevenir e Eliminar a Violência contra as Mulheres (IIPEVCM) sublinharam a urgência de avançar para padrões comuns de medição. O objetivo é reforçar as políticas de prevenção, dotando os Estados de dados comparáveis que permitam orientar o investimento público com critério.

Quando um Estado consegue medir o custo da violência, algo essencial muda: o problema deixa de ser percecionado apenas como uma questão social ou judicial e passa a ser entendido como um obstáculo direto ao desenvolvimento económico. Essa transformação concetual tem consequências políticas reais. Com menos violência, ganhamos todas e todos. Medir a violência não é apenas um exercício técnico. É uma condição imprescindível para a prevenir.


Lorena Larios é secretária para a Cooperação Ibero-Americana (SEGIB). Carmen Martínez Perza é presidente da IIPEVCM. Ana María Baiardi é gerente de Género, Inclusão e Diversidade da CAF e Paula Narváez Ojeda é diretora regional para a América Latina e as Caraíbas do UNFPA.

(*) Texto originalmente publicado no jornal El País a 15 de abril de 2027.