Por Lorena Larios Rodríguez, Secretária para a Cooperação Ibero-Americana (*)

Em ambos os lados do Atlântico, a transformação digital está redefinindo o trabalho nos 22 países da Comunidade Ibero-Americana a uma velocidade inédita. As plataformas digitais oferecem flexibilidade, autonomia e novas oportunidades de renda. Mas as evidências nos obrigam a colocar uma pergunta incômoda: essa nova economia está reduzindo as desigualdades de gênero ou apenas as está reproduzindo sob novas formas?
O estudo regional Mulheres na economia de plataformas: desafios e oportunidades na Ibero-América, elaborado pela Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), pela ONU Mulheres e pela OIT, oferece uma das radiografias mais completas desse fenômeno na região.
Hoje, aproximadamente 3,5 milhões de mulheres na Ibero-América geram renda por meio de plataformas digitais, o que representa cerca de 2,5% da força de trabalho feminina regional. Não se trata de um fenômeno marginal, mas de uma transformação estrutural do mercado de trabalho. No entanto, ainda enfrentamos uma limitação importante: sabemos pouco sobre quantas pessoas trabalham na economia digital e dispomos de escassas informações desagregadas por gênero. Essa falta de dados dificulta o desenho de políticas públicas eficazes e a compreensão plena do impacto dessa nova forma de emprego.
Os dados disponíveis mostram que acesso não equivale a igualdade. Nas plataformas de trabalho on-line, por exemplo, as mulheres ganham, em média, 41% menos por hora do que os homens (2,2 dólares frente a 2,9) e até 67% menos de renda semanal (35,2 dólares frente a 58,3). Essas brechas evidenciam que a digitalização do trabalho não elimina automaticamente as desigualdades históricas do mercado laboral.
Paradoxalmente, muitas dessas trabalhadoras têm níveis educacionais iguais ou até superiores aos de seus pares masculinos. A brecha não se explica por menor formação, mas por fatores estruturais persistentes: estereótipos de gênero, uma distribuição desigual das responsabilidades de cuidado e dinâmicas de segregação ocupacional que limitam a presença das mulheres nos setores mais bem remunerados da economia digital.
Nas plataformas baseadas em localização, como transporte ou entregas, a desigualdade assume outras formas. As trabalhadoras relatam níveis mais elevados de assédio e violência e mecanismos de denúncia ainda insuficientes em muitas plataformas. Soma-se a isso o fato de que cerca de 25% do tempo que dedicam a essas atividades não é remunerado: horas investidas em buscar tarefas, esperar atribuições ou gerir perfis digitais.
A chamada “flexibilidade” é um dos principais atrativos desse modelo, mas muitas vezes trata-se de uma flexibilidade condicionada. Os sistemas
algorítmicos tendem a premiar a disponibilidade em horários de maior demanda — frequentemente noturnos —, o que é difícil de conciliar com responsabilidades de cuidado que continuam recaindo majoritariamente sobre as mulheres. Além disso, a frequente classificação dessas trabalhadoras como independentes limita seu acesso à proteção social básica.
A economia digital não opera no vazio: ela reflete e, em alguns casos, amplifica desigualdades preexistentes. O teto de vidro não desapareceu, apenas se digitalizou. Persistem também barreiras no acesso a dispositivos, conectividade, financiamento e competências digitais, que restringem a participação de muitas mulheres em alguns dos segmentos mais dinâmicos e melhor remunerados da economia digital.
Isso não significa que devamos frear a digitalização. Significa, antes, que devemos governá-la melhor.
A Comunidade Ibero-Americana deu um passo importante com a adoção da Carta Ibero-Americana de Princípios e Direitos nos Ambientes Digitais, que coloca as pessoas no centro da transformação digital e reconhece que a inovação tecnológica não é neutra. Reduzir a brecha digital de gênero deve fazer parte explícita das políticas públicas.
A economia de plataformas pode ampliar oportunidades para milhões de mulheres. Mas, se não for acompanhada de regras justas e políticas inclusivas, também pode consolidar precariedades.
A igualdade de gênero não é um efeito automático do progresso tecnológico. É, antes de tudo, uma decisão política. Em uma região diversa e desigual como a Ibero-América, essa decisão só pode ser construída a partir da cooperação e de políticas públicas que coloquem a igualdade no centro da transformação digital.
(*) Texto originalmente publicado no jornal La Nación, Argentina
